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O Coração Delator

Quando criança, eu morria de medo dessa animação baseada em um conto de Edgar Allan Poe. Passava esporadicamente na sessão de desenhos de Mr. Magoo, também da UPA Cartoon.

É um trabalho primoroso, com um clima sombrio, doentio.

A narração é do ator James Mason, numa excelente interpretação.

Em tempo: Alvaro Domingues do Homem Nerd informou que o episódio de Bob Esponja “Botas que rangem” também é uma homenagem ao mesmo conto de Poe:

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O frango atravessando a rua

Como seria a versão de “o frango atravessando a rua” de Frank Herbert, o criador da série literária “Duna”? Segue abaixo minha humilde sugestão:

O Messias da Rua

O Messias da Rua
by Frank Herbert

O Frango venceu o terreno árido, ultrapassando as grandes elevações que se estendiam por toda a região. Agora já podia avistar a grande rua.
“Tenho que atravessá-la!”, pensou.
Ele sabia que aquilo era mais que uma rua, não estava iludido por falsas aparências. Sua mente estava focada não na rua, mas no que ela realmente representava. Aquilo era o Universo inteiro! A rua era na verdade o caminho nunca antes trilhado, o “Caminho Dourado”, por onde poucos frangos ousaram trilhar. E os que tentaram, falharam!
“Devo seguir sem medo, pela espécie, pelo por vir, pela correção do futuro! Agora, o que farei se tornará lenda!” O Frango sabia que não poderia retornar mais, tinha meditado muito sobre isso. Os outros frangos haviam recusado sua idéia, não era o momento de abandoná-los. Mas para o Frango havia chegado o momento certo, tudo a sua volta exigia essa atitude. Tudo já estava determinado!
“Não devo ter medo de atravessar a rua. O medo é a obliteração da mente!”, pensou o Frango.
Enquanto tomava fôlego para a travessia, suas penas secavam, sofrendo os efeitos causticantes de um sol inclemente. O Frango estava perdendo sua umidade. “Isso é imperdoável! Não posso mais esperar!”
O Frango reiniciou seus passos em direção à rua, sempre tomando o cuidado de evitar a cadência, para não chamar a atenção do perigo. Sua respiração tornou-se ofegante e o Frango lembrou-se do treinamento prana-bindu, evitando mais excessos à sua condição física. “Minha missão não pode falhar agora. Não tão perto de seu fim!”, pensou ele.
Então, o Frango atravessou a rua e nunca mais foi visto. Mas, dizem que continua vivo, no “além-rua”. O Frango nunca será esquecido. Sua história será mantida para sempre, por todas as gerações.

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E como seria a visão de outros escritores famosos? Nelson Brito da lista Ficfan coletou na internet os textos a seguir. Divirtam-se!

Frangus wake
by James Joyce

Um frango. Uma rua. Indecifrável intenção. Uma artimanha em seus caminhos.
Um frango. Hiato no cerne da estrada. Um relâmpago alhures, no vazio, o recorda de pensar. O recorda de caminhar. De enveredar pelo caminho.
Uma estrada para atravessar. No estrado a travessia.O caminhar ausente de caminho.
Um animal ereto e digno perante suas pernas que se definem pelo caminhar.
Na sua senda correm os burburinhos:
Caminha, caminha , trôpego caminha
Nesta estrada sem fim
Bole, bole frango caminhador
Nesta estrada sem fim.
Atravessar ou não a rua?
E eis que o frango atravessa uma rua que passa por si.

Ainda o frango se levanta
by Ernest Hemingway

Ontem percebi um frango olhando para rua atrás de Saint-eienne-du-mont. Parecia querer atravessá-la.
Eu estava atrás da estação da Place de la Contrescarpe com Brett. Tomei alguns tragos com Brett. É sempre agradável beber com Brett, principalmente no Borjouns. Era tarde.
O barman limpou os copos demoradamente com um longo guardanapo de algodão e os olhou contra a luz. Serviu duas doses generosas de Cardhu com pouco gelo.
Brett retirou um Cohiba da bolsa, cortou as pontas delicadamente com um aparador e acendeu lançando espessas baforadas azuis. Eu prefiro fumar um bom charuto com conhaque, mas Brett gosta do puro malte. Eu gosto muito de fumar com Brett. Ficamos bebendo e fumando boa parte do tempo, quando dei por mim, o frango tinha atravessado a rua.

O Frangote de Curitiba
by Dalton Trevisan

O frango magro esquelético raquítico esgueirou-se pelos vãos para atravessar a rua Euclides Bandeira, perto da ponte por onde borbulhava o rio Belém. Quando um caminhão o esmagou, não por inteiro. Mas em partes.
Suas vísceras se esparramaram pelo asfalto. Não demorou muito para começar a apodrecer. Seu fedor anunciou-se pela vila misturando-se com o cheiro de urina.
Nelsinho ajeitou seu bigode e foi olhar pela janela a fim de localizar a fonte de tanta catinga. Clarice queria também ver. Quando ela se espremeu ainda nua ao lado dele na janela, Nelsinho com sua atitude indecente, recordou-a que também ele era podre.
– Fica, fica assim, Clarice. Fica.

A lira e o frango
by Gabriel Garcia Marques

O frango queria atravessar a estrada pois seu dono tinha um irmão ferroviário que o infernizava demais pelos problemas da relação de sua mãe que revoltada tinha fugido com um marinheiro que recebera uma bolada da partilha de bens do inventário de Alonso este que depois de partir com Raul Buendia num cavalo de ferro destes que soltam fogo pelas ventas naquela nuvem de vapor e que ao pegar o trem nunca mais tinha voltado para reclamar a posse do que era seu por direito depois da morte de seu pai que tinha deixado como segundo herdeiro o homem que Berenice se enamorara este marinheiro que caçoava da vida dos dois filhos de sua agregada por terem deixado o frango solto que evadiu-se cruzando a rua. Depois disso o céu ficou escarlate e choveu durante dois dias inteiros violetas róseas e azuis. Berenice sabia que isto era um presságio. Pesava sobre o frango a maldição dos Buendia.

A morte não tem pena
by Edgar Allan Poe

Era tarde da noite. Uma sombra estranha pairava sobre a rua. O frango queria atravessar mas o medo o paralisava. Uma gota de suor correu pelo seu bico. O frango sabia que aquilo que mais temia estava se aproximando dele lentamente. Podia ouvir o arrastar pesado de um corpo. Podia sentir o frio daquele olhar em sua nuca. Ele tinha que atravessar a rua naquele momento, senão seria tarde demais. Mas suas pernas não se moviam. Estavam como que petrificadas.A sombra se aproximava lentamente. Agora se transformava em um vulto. Ele via algo de muito terrível, mas não queria acreditar. O vulto estava se divisando. Sentiu aquela presença negativa, como uma onda que cristalizava todo o mal que poderia existir sob aquele céu. O frango sabia que não teria chance. Num ato de desespero correu com toda a sua energia e atravessou a rua como um raio. Correu até doer as pernas. Correu até não sentir mais os pés. Correu desesperadamente para salvar sua vida. Por fim, quase sem ar parou para recuperar o fôlego e olhando para atrás suspirou aliviado. Havia escapado. A sombra não mais o perseguia. De repente um pensamento gelou o seu sangue: – Mas aquela criatura não podia voar?
Um arrepio correu pela espinha quando virou-se e viu de relance o brilho de um machado…

Franguin , Franguin, Fardão de Guerra
by Jorge Amado

Neguin o frango queria atravessar a rua. Neguin o frango de Maria, prima de Odete, olhou para a rua. Um cheiro de caruru no ar. Os atabaques arrepiavam. A lavagem iria começar.
Santin tinha defendido a aruanda do Obó. Não queria que Neguin virasse oferenda.
– Mas que coisa Neguin. Atravessa essa rua menino!!
– ‘ Ce viu Maria?
– Vi não. Talvez esteja fazendo despacho pr’a omulu.
– Maria fica triste se Neguin foge.
– Tem coisa não, Neguim. Vá que te defendo.
Neguin atravessou confiante. Ogun olhava por ele.

Companheiro em penas
by Hermann Hesse

Um frango queria atravessar a rua. Atravessou.

Suprémme de Rua
by Paulo Leminski

frango rua rua rua rua rua rua rua rua
rua frango rua rua rua rua rua rua rua
rua rua frango rua rua rua rua rua rua
rua rua rua frango rua rua rua rua rua
rua rua rua rua frango rua rua rua rua
rua rua rua rua rua frango rua rua rua
rua rua rua rua rua rua rua frango rua
rua rua rua rua rua rua rua rua frango

Eu, frango
by Isaac Asimov

Todos olharam de formam intrigada para Dra. Susan. Como ela explicaria a pane do NS5-A frente ao simples atropelamento de uma ave.
– Um frango estava atravessando a rua e foi atropelado por um caminhão. O robô entrou em parafuso e simplesmente gelou. Desde aquele momento não esboçou nenhuma reação. Ficou assim, tremendo. – Comentou uma testemunha.
– É simples. – Iniciou a doutora em Psicologia Robótica. – Nestor ou o robô NS5-A observou o frango de Martha atravessando a rua. Um caminhão vinha em disparada. Nestor acionou seu cérebro positrônico e calculou pela velocidade estimada do galináceo e do automóvel que o encontro se daria em poucos segundos e que este encontro seria, para a ave, fatal. Nestor tinha em seus registros o grau de afeição que Martha tinha pelo animal. Com a morte do frango, Martha poderia sofrer muito com a perda. Logo pela Primeira Lei da Robótica ele é obrigado a impedir que um ser humano sofra algum mal por sua omissão.
– O caminhoneiro vendo que o robô estava se movendo no intuito de salvar o frango, buzinou. A buzina atua como uma ordem direta de um ser humano. Saia do caminho. Pela segunda lei, o robô deve obedecer aos seres humanos, desde que não contrarie a primeira lei. Se Nestor tentasse salvar o frango, sofreria danos irreparáveis contrariando a terceira lei que obriga a todo o robô evitar sua própria destruição. Assim as duas leis entraram em conflito com a primeira. Como a primeira lei tem maior hierarquia esta tenderia a vencer. No entanto se Nestor fosse destruído quem arcaria com os prejuízos materiais (caminhão + robô) seria Martha e ela sofreria um prejuízo. Qual sofrimento seria menor? A perda de uma simples ave, que tem valor afetivo, ou de uma máquina altamente sofisticada, que apresenta um elevado valor material? Foi isto que provocou a pane. Os robôs não apresentam equanimidade, sobre estas questões de valores. Seu frágil cérebro positrônico entrou em looping.
Com isso a doutora encerrava a questão. Porém, ao ver Nestor tremendo como vara verde, ela perguntou para si mesma: – Será que um robô poderia se acovardar? – Não, não. – Afastou a idéia ridícula comentanto consigo mesma – Isto seria humano demais.

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